O Brasil empurra o ajuste fiscal e 2027 será o momento da verdade

Todo investidor que acompanha o Brasil precisa entender uma realidade incômoda: o país está gastando mais do que arrecada de forma estrutural, e a conta vai chegar. Não é questão de pessimismo, é matemática fiscal. 

A dívida pública deve chegar a 83,6% do PIB no final de 2026, e o pior: sem uma correção de rota, estaremos diante de um “momento da verdade” em 2027 que pode redefinir os juros, o câmbio e o ambiente de negócios para a próxima década.

2026: O ano da paralisia fiscal

Estamos em ano eleitoral que, por definição, é um período que não costuma ser de enfrentamento de problemas estruturais. O debate fiscal perde profundidade, as decisões mais difíceis ficam para depois, e o mercado se torna mais volátil, passando a reagir mais ao discurso do que à realidade.

Nesse vácuo, a taxa SELIC em patamares elevados funciona como uma ponte temporária para segurar a inflação e a demanda. É uma solução paliativa que mascara a falta de ajuste fiscal. Juros altos desestimulam investimentos, encarecem o crédito para empresas e reduzem o apetite por risco. Para quem investe, o ponto de atenção é: cuidado com alavancagem e mantenha liquidez.

O problema é o custo disso, pois o Brasil paga juros reais de 7% a 10% ao ano, a segunda maior taxa do mundo, e metade da nossa dívida é indexada à Selic. Acompanha o raciocínio: quanto mais demoramos para ajustar as contas, mais caro fica o serviço da dívida e menos sobra para investir em infraestrutura, educação ou inovação.

2027: O momento da verdade fiscal

Se 2026 é ano da inércia, 2027 será o ano das decisões duras. O atual arcabouço fiscal é insuficiente para conter o crescimento das despesas obrigatórias, que, hoje, representam mais de 90% dos gastos não financeiros do governo. 

Estamos falando de cerca de R$ 2,1 trilhões de um total de R$ 2,3 trilhões em despesas obrigatórias e o espaço para cortes discricionários é extremamente limitado. Por outro lado, não há ajuste possível relevante apenas cortando investimento ou despesas administrativas.

O problema está na estrutura do gasto, e aqui entra um dos principais pontos de tensão: a indexação. Grande parte das despesas públicas está atrelada a regras automáticas de crescimento, especialmente via salário mínimo. Com cerca de 70% dos benefícios do INSS vinculados a ele, qualquer aumento real acima da produtividade gera uma pressão direta e crescente sobre o orçamento.

O desafio é que a economia brasileira cresce algo próximo de 2% ao ano,  enquanto essas despesas podem crescer bem acima disso. Nos últimos 30 anos (1996 a 2026), o salário mínimo cresceu cerca de 102,4% em termos reais, enquanto a produtividade aumentou apenas 12%. Esse descompasso gera excesso de demanda sobre oferta limitada, pressionando a inflação para cima.

O resultado é que para estabilizar a dívida pública, o Brasil precisaria sair de um déficit primário projetado de R$ 50 a R$ 60 bilhões e alcançar superávit superior a R$ 200 bilhões por ano. Isso implica um ajuste fiscal de quase R$ 300 bilhões, sem o qual, a trajetória da dívida continuará ascendente, tornando essa dívida impagável a longo prazo.

O dilema do ajuste: cortar gastos ou aumentar impostos?

A questão é que não estamos falando de um ajuste trivial e, a princípio, o governo tem duas saídas, e nenhuma é popular. A primeira é controlar o crescimento das despesas obrigatórias, revisando a política de valorização real do salário mínimo e desvinculando gastos de saúde e educação da arrecadação. A segunda é aumentar a carga tributária em quase R$ 300 bilhões.

Aumentar impostos parece uma solução fácil, mas tem efeito colateral perverso. Como saúde e educação estão indexadas à receita, mais arrecadação gera mais despesa automática, neutralizando o esforço fiscal. Além disso, tirar dinheiro dos mais ricos para dar aos mais pobres aumenta o consumo agregado. Em uma economia de pleno emprego, isso gera inflação e força o Banco Central a manter juros altos.

O recado é claro: sem controle de gastos, o Brasil fica preso no ciclo de juros elevados, câmbio volátil e baixo crescimento. A incerteza fiscal eleva o prêmio de risco e encarece o capital para investimentos produtivos.

Por que os juros estão tão altos e tendem a continuar?

Muita gente ainda busca explicações complexas para o nível de juros no Brasil. Mas, no fundo, a explicação é bastante direta. O país opera próximo do pleno emprego, com taxa de desemprego entre 5,2% e 5,5%. Quando toda a mão de obra disponível já está trabalhando, o crescimento só vem via produtividade. E aqui está o nó: nossa produtividade é baixa e estagnada.

Quando os salários crescem muito acima da produtividade, o custo de produção aumenta e é repassado aos preços. O Banco Central, para cumprir a meta de inflação, é obrigado a manter a Selic elevada para fazer frente a um cenário onde a demanda estimulada por políticas públicas colide com oferta limitada pela falta de eficiência produtiva.

Reformas estruturais: o único caminho para crescimento sustentável

Existe um equívoco recorrente no debate público: tratar reformas estruturais como uma escolha política, e não como uma necessidade econômica, mas o fato é que a Reforma Tributária, aprovada recentemente, é a reforma estruturante mais importante desde o Plano Real, com potencial para gerar ganhos de produtividade consistentes ao longo das próximas duas décadas, simplificando o sistema e eliminando distorções que travam o investimento.

Mas, obviamente, a reforma tributária sozinha não dá conta do problema fiscal. Sem um ajuste que estabilize a dívida e reduza o custo de financiamento da economia, o país permanece preso em um ciclo de juros altos e baixo crescimento.

Sendo assim, outras reformas fundamentais incluem:

  • Marcos regulatórios claros: o Marco do Saneamento demonstrou eficácia em atrair investimentos privados. Estabilidade regulatória é essencial para um ciclo de 10 anos de investimentos em infraestrutura.
  • Educação e capital humano: em cerca de 15 anos, a população brasileira começará a diminuir. Precisaremos de trabalhadores mais qualificados e engenheiros para compensar a redução da força de trabalho.
  • Ajuste fiscal como pré-condição: sem resolver o problema da dívida e dos juros altos, o país não consegue focar em inovação e integração global. Ficamos presos no eterno retorno das crises fiscais.

O risco real: perder a confiança antes de agir

O diagnóstico do problema fiscal brasileiro não é novo. Ele é conhecido, mapeado e amplamente discutido e o ponto mais sensível desse cenário não é apenas econômico, mas de confiança.

Se, no início de 2027, não houver uma sinalização crível de trajetória quanto à forma como o governo pretende lidar com o crescimento dos gastos e a estabilização da dívida, o risco é uma deterioração mais forte das expectativas e isso se traduz em câmbio pressionado, juros mais altos por mais tempo e menor investimento.

Nesse ambiente, o país volta para um ciclo conhecido: cresce pouco, paga caro para se financiar e adia novamente as decisões mais difíceis.

O que esperar e como se posicionar

Para executivos e investidores, o cenário exige cautela e seletividade. Setores resilientes como infraestrutura com contratos de longo prazo, saneamento, energia renovável e setores com demanda inelástica tendem a se sair melhor em ambiente de incerteza fiscal.

Além disso, diversificação cambial também é importante. O Real pode se valorizar se o cenário internacional permanecer turbulento, mas a tendência de médio prazo depende do ajuste fiscal. Manter parte do portfólio em moedas fortes é uma estratégia de proteção interessante.

Importante também ficarmos atentos às empresas cujo faturamento depende de contratos governamentais ou subsídios, já que estarão correndo mais riscos quanto à inadimplência ou atraso de pagamentos. Enfim, o aperto fiscal virá, a questão é como.

Para quem tem dinheiro em jogo, a recomendação é monitorar de perto as decisões fiscais de 2027. O ajuste de R$ 300 bilhões não será fácil nem popular, mas é o preço da estabilidade.

Sem ele, continuaremos reféns dos juros altos, assistindo a dívida crescer enquanto a produtividade segue estagnada. O fato é que o Brasil não quebra por falta de diagnóstico. Ele trava por falta de decisão.

Author

Prof. Mira

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *