Eleição e investimentos: não aposte seu futuro nas urnas
Pesquisas erraram o 1º turno da eleição e a Bolsa subiu. Veja como proteger metas de curto e longo prazo até o 2º turno.
Em outubro de 2022, às vésperas do segundo turno, escrevi na Forbes que o resultado das eleições não deveria definir as suas decisões de investimento, e quatro anos depois, com a Selic de volta aos mesmos 13,75% ao ano, o primeiro turno de 2026 acrescenta ao meu argumento novas camadas históricas e evidências.
Escrevo este texto entre os dois turnos, com o país ainda dividido e o mercado ainda eufórico, e duas evidências cabem em uma frase: as pesquisas erraram a ordem de chegada e a Bolsa teve a maior alta pós-eleição desde 2002, o que mostra o quanto é frágil montar uma carteira em cima de um palpite sobre as urnas.
Todas as seis pesquisas divulgadas na véspera da votação colocaram Flávio Bolsonaro, que terminou em primeiro, abaixo do que ele teve nas urnas, e as principais apontavam Lula à frente. O resultado oficial, com 100% das seções totalizadas pelo TSE, foi de 47,03% contra 45,16% dos votos válidos, a menor diferença entre os dois primeiros colocados de um primeiro turno desde a redemocratização.
Eleição imprevisível: pesquisas erraram o 1º turno
Os mercados de previsão, que o Conselho Monetário Nacional proibiu no Brasil em abril, também não serviram de bússola: dois dias antes da votação, as duas maiores plataformas davam entre 57% e 58% de chance de vitória a Flávio, e depois da apuração essa probabilidade passou de 80%, um salto de mais de 20 pontos em um fim de semana.
Isso não desqualifica quem faz pesquisa nem quem aposta, porque estimar o comportamento de mais de 150 milhões de eleitores é difícil por natureza, e probabilidade é justamente a medida de algo que ainda pode dar errado. O problema começa quando o investidor trata essas estimativas como certeza e decide o destino do patrimônio com base nelas.
O psicólogo e cientista político canandense, Philip Tetlock, acompanhou por quase duas décadas cerca de 28 mil previsões feitas por 284 especialistas sobre política e economia, e o resultado, publicado em 2005, mostrou que elas acertavam pouco mais do que o acaso. Pior: os que se apoiavam em uma única grande tese, a quem Tetlock chamou de porcos-espinhos, erravam mais do que as raposas, que combinavam várias fontes e mudavam de ideia diante de dados novos.
Montar a carteira em torno de quem vai ganhar a eleição é a estratégia do porco-espinho levada ao bolso, e é o que eu chamaria de carteira de palpite: ela funciona enquanto a tese acerta e fica sem plano no dia em que a tese falha.
Alta do Ibovespa não pode definir sua estratégia
Na segunda-feira, 5, o Ibovespa subiu 7,70%, acima dos 5,54% do primeiro pregão pós-eleição de 2022, numa reação que segue um padrão, já que a Bolsa subiu no dia seguinte ao primeiro turno em seis das sete eleições desde 2002. O intervalo entre os turnos, porém, costuma cobrar a conta: em 2022, houve uma queda de 4,4% em um único pregão nesse período.
O índice que mede a volatilidade esperada do Ibovespa bateu recorde na sexta-feira anterior à votação, o que mostra quanta incerteza os preços carregavam, e a disparada de segunda pode ser lida como o mercado trocando uma aposta por outra. Quem compra ou vende por causa desse movimento está, na prática, apostando no segundo turno com dinheiro que deveria estar a serviço de uma meta.
Investimentos de curto prazo pedem prazo casado com a meta
Para o dinheiro que tem destino em até dois ou três anos, a lógica de 2022 continua de pé e os números de hoje a tornam ainda mais simples. A reserva de emergência segue no Tesouro Selic ou em um CDB com liquidez diária que pague 100% do CDI, e com a Selic em 13,75% e a inflação esperada para 2026 em torno de 5%, esse dinheiro, que precisa estar sempre disponível, rende hoje algo perto de 8% acima da inflação.
Para metas com data marcada, como a entrada de um imóvel ou a troca do carro, o caminho é escolher títulos cujo vencimento coincida com a data do objetivo, porque um prefixado com vencimento em 2032, que hoje paga 12,71% ao ano, pode atravessar várias oscilações de preço antes disso, e quem precisar vender no meio do caminho fica exposto ao humor do mercado ao longo do tempo.
Longo prazo: sua meta pode atravessar vários mandatos
Em 2022, propus um exercício de futurologia: tente adivinhar quem vai presidir o país daqui a dez anos. Ninguém consegue responder, e esse é o ponto, porque quem investe para a aposentadoria ou para a faculdade dos filhos vai atravessar dois ou três mandatos, com governos de orientações diferentes, crises ainda imprevisíveis e ciclos de juros completos.
Para esse dinheiro, o que decide o resultado é a constância dos aportes e a diversificação entre classes de ativos. O Tesouro IPCA+ 2050, por exemplo, paga hoje a inflação mais 6,51% ao ano, uma taxa real alta para qualquer padrão internacional, e quem aporta com regularidade compra esse tipo de título e ações em momentos bons e ruins, sem precisar acertar o calendário eleitoral.
Cidadania financeira continua depois da eleição
Desligar o resultado das urnas da carteira não significa se desligar da política, atinal, como investidor você é também cidadão, e as escolhas fiscais dos próximos governos vão definir quanto o país paga pelo próprio dinheiro, o que chega ao seu bolso pelos juros, pela inflação e pelos impostos.
Acompanhar as propostas pelo efeito que elas produzem nessas três variáveis, sem torcida, é a maneira mais madura de levar a política para dentro do planejamento, e é esse tipo de leitura que eu e meu time de analistas procuramos fazer na elaboração das carteiras recomendadas na Comunidade Mira.
Mandatos vencem a cada quatro anos, enquanto a dívida que eles deixam rende juros por décadas, e é ela, mais do que o nome na urna, que vai pesar na carteira de quem investe para o longo prazo.


